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domingo, 25 de abril de 2010

A Alice de Burton

Tim Burton é um diretor cujas películas transitam facilmente entre filmes classe B e aqueles advindos da produção hollywoodiana. Suas produções com visual exótico, gótico e escuro, além de figurino tresloucado, são únicos. Quando foi anunciado que o próximo filme do diretor seria "Alice no País das Maravilhas" (Alice in Wonderland, 2010) a expectativa era de uma grande obra, pelo fato desse caldeirão de Burton parecer se adequar perfeitamente a uma história como a da obra de Lewis Carroll.

O resultado final, porém, não foi o esperado. Burton apóia a sua narrativa estritamente no aspecto visual e a história é relegada a segundo plano. O telespectador com certeza vai se deliciar com a paleta de cores do diretor, com as transições de cenas criativas (como a do gato que ri, ao virar a Lua), com o figurino bem cuidado, com o visual das personagens e com tudo o mais que vier relativo ao aspecto visual da obra. Mas o enredo do filme compromete.
   
Ao chegar no País das Maravilhas, já é contado a Alice e ao telespectador o que a heroína do filme deve fazer, e então o restante da película é uma busca linear para a realização do objetivo. É uma viagem num lugar exótico, mas a viagem, em si, é tranquila, sem grandes variações ou surpresas.

O grande mote da obra de Lewis Carroll é justamente causar constantemente um estado de confusão e estranheza, nunca deixando um referencial fixo ao leitor. Burton causa a estranheza somente no visual, mas o seu enredo é fixo, linear, chegando até a descaracterizar certos personagens. O Chapeleiro Louco, por exemplo, aparenta ser mais um revolucionário político do que uma personagem imprevisível a confundir Alice.

Considerando prós e contras, o filme de Burton poderia ser bem melhor do que é, mas, em tempos onde o 3D e o visual imperam, há de o filme fazer grande bilheteria e estar bem inserido nesse contexto.

domingo, 1 de novembro de 2009

This is it

This is it”, filme póstumo de Michael Jackson que estreou nessa quarta-feira, permite múltiplas perspectivas. Feito às pressas depois da morte do astro, com intuito de ficar apenas duas semanas em cartaz para depois ser vendido em DVD no natal, o rótulo de caça níquel é inevitável.

Infelizmente, durante a projeção, tal rótulo é comprovado. A estrutura da película, um híbrido entre documentário e musical, acaba sendo mais uma colcha de retalhos daquilo que poderia ter sido e não foi devido a essa pressa. A parte “documentário” é muito rasa, permitindo pequenos vislumbres de como Jackson e sua equipe trabalhavam. A parte “musical”, o grosso de “This is it”, é uma coleção de ensaios esperando um show para formatá-los. O material todo ficaria muito bom como um DVD de extras do show, não como um filme em si.

Mas, estamos falando de Michael Jackson, e é aí que entram as múltiplas perspectivas do filme. Não basta analisá-lo como produto acabado; há de pensar em “This is it” como a lembrança de uma das maiores figuras da história da música. Assim a obra ganha suas verdadeiras cores e cresce em importância, e nisso ela acerta, por ser uma bela lembrança.

Fugindo das controvérsias envolvendo a vida de Jackson e sua morte, “This is it” mostra, com dignidade, um Michael como todos deveriam se lembrar: um sujeito focado em seu trabalho, perfeccionista, preparando-se para um grande show. Não duvido se em todas as sessões ao redor do mundo todos baterem palmas.



domingo, 23 de agosto de 2009

South Park


Fiz uma crítica ao desenho "Os Simpsons" em um outro texto meu. Nele, eu chegava à conclusão de que o referido desenho, por meio de uma crítica à sociedade norte-americana leve e descompromissada, acaba ansiando pelo status quo social. Todas as instituições são agredidas, mas, no final, sempre a instituição "Família" é preservada. Além do mais, posso até estender meu comentário aqui afirmando que "Os Simpsons" carrega um pensamento burguês neo-liberal; personagens como Lisa e Margie são bem sucedidas, apesar do constante obstáculo ao seu sucesso imposto pelas instituições. Assim, sob a perspectiva do desenho, cada cidadão é capaz de desenvolver sua vida social satisfatoriamente, por meio de méritos próprios, independente da crise institucional generalizada a qual o personagem possa se achar.

Agora, chega de Simpsons, pois é a vez de analisar outro desenho: "South Park". Esse desenho, considerado mais escatológico, ácido e grosseiro, é também um desenho mais crítico, se comparado aos Simpsons. Não que South Park seja um primor de crítica ao atual american way of life, mas o desenho é mais niilista. Nele, nenhuma instituição resta de pé, e todas, inclusive a família, são sistematicamente destruídas a cada episódio. Não é ressaltado nenhum mérito pessoal que qualquer personagem possa ter, e todas as correntes ideológicas são criticadas. O menino judeu, o gordo, o pobre, o classe média, o rico, o deficiente, enfim, todos, possuem os mesmos problemas de se viver numa sociedade medíocre, e não há méritos individuais que os possam salvar.

South Park aborda questões espinhosas: racismo, sexo, educação e mídia estão no cerne da animação. Além desse ponto, o desenho chega a discutir o próprio formato do discurso, quando aborda a loucura a qual a comunidade norte-americana está chegando ao se importar tanto com o politicamente correto. Definitivamente, South Park não tem a intenção de ser artístico ou a preocupação de fazer uma crítica séria e embasada; é um desenho niilista, politicamente incorreto e, por isso, sua crítica ao status quo surte mais efeito.