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domingo, 15 de agosto de 2010

Flip

A Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) deste ano acertou em diversos aspectos: debater Gilberto Freyre, trazer Ferreira Gullar, Patrícia Mello e Salman Rushdie, além do fato mais importante: a vinda de Robert Crumb, ícone e mito da cultura alternativa norte-americana.

Negativo foi o convite a Fernando Henrique Cardoso, durante ano eleitoral, para falar sobre Freyre. O autor de Casa-grande & Senzala poderia ser debatido por qualquer outro intelectual que não estivesse envolvido na política.

O que importa, afinal, é que foi cumprida a vocação da Flip, de aproximar leitor e escritor, propiciando um debate mais amplo.

domingo, 20 de junho de 2010

O guru

A semana começou com uma matéria no programa Fantástico sobre o escritor Augusto Cury. O autor havia feito uma palestra para os jogadores da seleção brasileira de futebol, demonstrando a importância de se ficar focado para o sucesso, e deu uma entrevista ao programa contando, humildemente, sua pouca influência no técnico da seleção, Dunga.

A matéria deu destaque ao escritor, afirmando que Augusto Cury seria o guru de Dunga. Aí eu mudei de canal mesmo porque não dá: Dunga, o sujeito adepto do futebol pragmático, burocrático e militar, sendo um discípulo de Augusto Cury, sujeito de frases feitas, cuja ideologia nega a autonomia do sujeito? É um casamento perfeito.

Ambos acreditam em fórmulas prontas, negando a liberdade individual de cada um e as crises institucionais que permeiam a sociedade. O futebol do Brasil é feio? Oras, mas vencemos, diria Dunga. Você está infeliz? É só seguir uns passos programados por um livro e sua alegria virá, diria Cury.

Ambos acreditam que seguindo regras simples, pré-estabelecidas, é possível alcançar o "sucesso", não discutindo de modo mais profundo isto e suas implicações. Sucesso é jogar bonito, mas não vencer, ou ganhar jogando feio? Sucesso é ser feliz consigo mesmo, ou ser infeliz, mas ciente das crises que necessariamente permeiam a condição humana? Ambos negam esse questionamento e a liberdade individual de construir respostas para isso.

Augusto Cury e Dunga, enfim, são sujeitos cujo discurso simplista e pronto tolhe a possibilidade do debate e reflexão, subestimando a autonomia de cada um. Infelizmente, o mundo cada vez possui mais gente como eles, enquanto Telê Santana e José Saramago nos deixam.

domingo, 16 de maio de 2010

O ciclo de Paulo Coelho

Paulo Coelho é um caso sui generis. Escritor popular, um dos raros a sobreviver da escrita no Brasil, possuindo amplo sucesso no exterior, Coelho conseguiu feito que gente do calibre de Mário Quintana e Oswald de Andrade não conseguiram: participar da Academia Brasileira de Letras. Agora, Coelho demonstra ser mais sui generis ainda, pois tem o mercado editoral a seus pés, ao escolher a editora do seu próximo livro.

E, afinal, o que me leva a escrever este post é o título do próximo livro do autor: O Aleph. Paulo Coelho várias vezes deu demonstrações de uma certa arrogância intelectual e agora o caso é mais grave, de afronta mesmo. Que diabos o Paulo Coelho tem de colocar o nome da obra do Borges em livro seu? E eu afirmo isso não como aquele sujeito a imaginar os clássicos como livros inabaláveis e puros, mas sim preocupado com a insistência de Coelho em tentar dialogar com os autores canonizados pela crítica literária.

Coelho, é sabido, padece de uma dor de cotovelo para com os autores do cânone literário; depois do sucesso, o desejo dele é o de ser reconhecido pela crítica. Mas, ano após ano, ao invés de buscar uma sólida formação como escritor para ser reconhecido, Coelho apenas critica os clássicos, na tentativa de inferiorizá-los. E agora, além de criticar tais livros, ele tenta dialogar com eles via título. Obviamente não dará certo, Coelho será novamente criticado e no seu próximo livro ele voltará mais uma vez a inferiorizar os clássicos e tentar ser reconhecido pela crítica. É um ciclo, enfim, que não tem fim.

domingo, 14 de março de 2010

Utopia

Caro leitor, estou lendo A Utopia, de Thomas More, e devo confessar: o livro me é prazeroso. No livro, é descrito uma sociedade cujo funcionamento seria perfeito; todos teriam condições de trabalho e a sociedade seria dividida em grandes famílias. O que mais espanta em A Utopia, é a veemente abolição da propriedade privada. Segundo More, as pessoas não teriam nem mesmo casa, pois, na parte de habitação, cada família moraria durante dez anos em uma residência para depois passar outros dez anos em outra. Isso, segundo o seu autor, faria com que as casas fossem igualmente bem cuidadas, afinal, se o cidadão quer habitar uma boa casa, ele deve deixar uma boa casa para outro. Na vida real, tal abolição de propriedade extremada não aconteceu nem mesmo após a reforma agrária cubana, proporcionada por Che Gevara e Fidel Castro, na qual cada habitante passava a ser dono de seu próprio lar, mesmo que morasse em casa de aluguel.

A Utopia tem como um de seus momentos mais interessantes aquele no qual fala sobre a veste de seus habitantes. Todos usariam o mesmo tipo de roupa, que seria simples e sóbrio. O cidadão utopiano desprezaria ouro, prata e pedras preciosas, pois, segundo More, o ouro seria dado aos escravos, que o usariam no pescoço e nos braços. Além disso, as crianças ganhariam ouro e prata para brincar, e, assim como a boneca é largada quando a criança cresce, ao chegar a adolescência, não haveria mais interesse por esses metais.

Em muitas vezes A Utopia lembra A República de Platão, por constantemente exigir um cidadão disciplinado, racional, com gostos simples e sempre agindo em concordância com o governo. Platão frequentemente amplia o seu escopo em torno de questões pedagógicas e propriamente filosóficas, o que More poucas vezes faz. É de A República a passagem mais celebrada em Platão, na qual é dito o mito da caverna. More não consegue se aproximar de tal passagem, mas, convenhamos, poucas vezes a literatura mundial teve tal brilho.

Passado o tempo, A Utopia demonstra uma influência inegável, a ponto de ser sinônimo das utopias propriamente ditas. O livro, lido hoje, tem seu valor como exortação a uma vida mais simples, racional e digna. Não podemos aplicar a estrutura da utopia de Thomas More em nossa sociedade (e ele mesmo sabia disso), mas, se conseguíssemos aplicar esse espírito de simplicidade, nossa sociedade seria acrescida de valores mais interessantes. Infelizmente, caminhamos ao oposto do imaginado por More. Vivemos em uma sociedade cuja necessidade de consumo é cada vez maior, e o valor do homem como consumidor é maior do que como o de cidadão.